Cidade Suspensa

Há desvãos, espaços e presenças que são como que resíduos varridos para debaixo do tapete vistoso da paisagem urbana. São seus pontos-cegos, justamente porque revelam seu avesso ou suas vísceras. Eles são o contra ponto da identidade pretendida, são a sua mais completa negação, mas por isso mesmo também são a revelação daquilo que ela mais teme revelar: não a máscara exuberante, mas o rosto nu por trás da fantasia.

Nicolau Sevcenko

_MG_4281 - CópiaFoto: Alicia Peres

A real fábula da Cidade Suspensa é fruto do projeto Metrópole Rei – Cidade Crua Iniciado no final de 2011, e tendo como ponto de partida o conto A roupa nova do rei de Hans Christian Andersen. Os primeiros estudos que fizemos partiram das interpretações que surgiram logo após as primeiras leituras da fábula, e têm o objetivo de entender como ele pode ser atualizado para nosso tempo.

À princípio tínhamos como perspectiva o trabalho sobre a noção de espetacularidade em nossos corpos, mas a decisão de levarmos nossa criação para a região da Baixada do Glicério e ocupar a Casa do Migrante dentro da Paróquia Nossa Senhora da Paz influenciou definitivamente nosso trabalho, levando-o a ser um desdobramento de nossa pesquisa anterior que resultou na peça Cidade Submersa, e desta forma aprofundar alguns questionamentos levantados e seguir problematizando e repensando a cidade, estendendo o nosso entendimento de espetacularidade para o organismo urbano.

A região do Glicério foi o lugar escolhido para pesquisa e desenvolvimento do processo criativo da peça, por ocupar um lugar ambíguo no processo de urbanização de São Paulo.O Glicério, compõe a região que originou a cidade, com um percurso histórico repleto de simbolismos, como ter abrigado o largo da forca e o pelourinho durante o período colonial da cidade. Ainda hoje a Baixada se revela como o avesso da cidade espetacularizada – uma região desassistida e periférica, apesar de sua localização central, que expõe a precariedade, a violência, o abandono programado, a imagem crua e real por trás da roupagem idealizada e fetichizada da metrópole.

Para trazer à tona essas contradições, o grupo partiu da metáfora presente na fábula A Nova Roupa do Rei”, de Hans Christian Andersen, que narra a inexistência de uma suposta roupa que as pessoas afirmam ver. Compreendendo que ela metaforiza de forma sintética e bem humorada a relação de alienação pela imagem, o uso que o poder e a ideologia hegemônica fazem da exploração da aparência e da espetacularização como dominação, o grupo criou uma livre adaptação da fábula transposta para o contexto urbano, em que o público é ironicamente convidado a “ver” uma nova roupa para a velha cidade – Self-city, a Cidade Suspensa.

Aqui compartilhamos algumas etapas da pesquisa teórica durante o próximo processo de criação:

Uma obra que dialoga com nossas primeiras idéias é o livro Mitologias de Roland Barthes. Nele o autor considera o mito como linguagem, e destrincha em diversos artigos ícones de consumo da sociedade contemporânea que fazem uso dessa estrutura. O download pode ser feito gratuitamente por este link:

Mitologias de Roland Barthes 

 

A relação da nossa sociedade com o corpo e a nõção de experiência são coisas que vem provocado nossos estudos e reflexões. Os links abaixo contém dois vídeos que sintetizam bem essas provocações:

Palestra de André Martins para o Café filosófico: Corpo e Saúde na contemporaneidade

Palestra de Olgária Matos na série Invenção do Contemporâneo: Tempo sem experiência

 

No link abaixo você encontra uma resenha do livro Nu & Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca, organizado por MirianGoldenberg:

Resenha do livro Nu & Vestido: dez antropólogos revelam a cultura do corpo carioca

 

Nesta entrevista a pesquisadora Paula Sibilia fala um pouco sobre a nossa necessidade de sermos vistos e como forjamos nosso ‘eu’ por meio das redes sociais:

Entrevista de Paula Sibilia para o site IHU Online

 

Alguns artistas plásticos também têm nos alimentado nessa primeira fase de pesquisa por suas produções e principalmente pela elaboração visual que deram a este tema. Um deles é Andy Warhol, que soube compor bem em centenas de obras a supervalorização de figuras midiáticas, a banalização de imagens de tragédias e a representação falseada da publicidade, influenciando até hoje as artes gráficas e visuais, como na releitura recente do disco de Madonna. Outro artista é Saul Steinberg que soube em poucas linhas traçar um panorama satírico de costumes excêntricos e ostentadores de elites.

                                         

  

 

E pensando nessas relações algumas matérias que expõe um pouco nossa relação com o nosso corpo e o consumo hoje:

Coluna da Época: Como a classe média alta brasileira é escrava do alto padrão dos supérfluos

Mãe gasta R$32 mil em cirurgias plásticas para ficar igual à filha

Mãe aplica botox na própria filha de 8 anos

Erros de photoshop em fotos de redes sociais

– Vídeo que dialoga com nossas reflexões:

http://www.youtube.com/watch?v=jWLvOR1DjF0

Comments
One Response to “Cidade Suspensa”
  1. Fabiana Fríscio disse:

    Olá, Marília!!! Estudamos juntas na Unesp, turma de 2001.
    Tive a oportunidade de ver um pouco do seu trabalho por aqui. Parece muito bacana!!!

    Parabéns e sucesso!!!!

    Fabiana

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